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Entrevista ao Dr. Martins Pereira.
"Já sabemos quantos Camiões vamos vender em 2008"
Revista CAMIÃO - 2008

Martins Pereira, presidente do conselho de administração do GRUPO EVICAR desde o início dos anos noventa e filho do fundador da empresa "mãe", que comemora este ano o 50º aniversário da representação da DAF em Portugal, sendo o mais antigo concessionário a nível mundial da marca de camiões holandesa, comentou a liderança da DAF no mercado nacional nos últimos 2 anos, com as vendas a aproximarem-se das mil unidades, 740 dos quais em 2007 foram tractores, o que constitui um recorde absoluto e falou também do processo de internacionalização do GRUPO EVICAR em Espanha e Angola.

 
Martins Pereira, GRUPO EVICAR

Frota: Como comenta os bons resultados da DAF que conseguiu a liderança nos dois últimos anos no mercado nacional de pesados de mercadorias?

Martins Pereira: As vendas superaram todas as expectativas, foram dois anos de sucesso e quero publicamente agradecer a escolha que nos foi dada. Apesar das vendas efectivas terem sido superiores em 2006, o número de encomendas de camiões DAF foi superior em 2007. Infelizmente, não tivemos oportunidade de os entregar porque a DAF tem tido um sucesso de vendas a nível europeu muito grande e uma aceitação muito forte nos mercados de Leste, daí que em Portugal não tenhamos conseguido satisfazer muitas das solicitações. Transitámos para este ano com uma carteira de encomendas muito forte.

Considera que a actual crise que se vive nos mercados financeiros poderá afectar a confiança dos transportes portugueses ao ponto de retardarem investimentos na renovação de frotas no ano em curso?

Neste momento os nossos clientes estão um pouco apreensivos com as crises de que ouvimos falar resultantes do mercado subprime. Parece-me que há também um a crise psicológica. Penso que o mercado tem condições para superar esta crise e há razões fundamentais para que ela não seja uma crise profunda. Vamos ver em que medida é que isto nos poderá ou não afectar. De qualquer das formas posso adiantar que nós neste momento já sabemos exactamente quantos veículos vamos poder entregar até ao fim do ano. Nós vamos entregar muito perto do número de veículos que vendemos no ano passado, entre 900 e 1000 unidades.

Neste momento qual é o peso do chamado aluguer operacional de veículos nas vendas globais da EVICAR?

Entre os veículos que vendemos como aluguer operacional ou pelo menos com o contrato de manutenção incluído, representam neste momento mais de um terço dos veículos que comercializamos. É uma forma de estar no mercado que nos obriga a praticar preços extremamente competitivos, actualmente temos mais de 2200 camiões em contrato de manutenção. O aluguer operacional de veículos tem a particularidade de nós termos sido os primeiros a comercializa-lo em Portugal no início dos anos noventa. Havia alguns transportadores aos quais ainda não o tínhamos apresentado que o entendiam como uma forma de distinção em relação a outros, quando no fundo estavam disponíveis para todos.

O GRUPO EVICAR tem vindo também a desenvolver o seu processo de internacionalização em Espanha. Qual é o ponto da situação?

Em Espanha, neste momento acabámos de inaugurar as novas instalações no sul de Madrid, em Valdemoro, são já as terceiras instalações da EVICAR ESPAÑA em Madrid. Temos também instalações em Valladolid e estamos neste momento a concluir a aquisição do terreno para construir uma nova instalação em Burgos. Vamos ver se há outras zonas em Espanha para onde nos possamos expandir, é uma possibilidade forte de considerarmos o País Basco, cobrindo no fundo todo aquele eixo onde operam os camiões portugueses a caminho da Europa. Em Espanha temos muita atenção ao ITS, aos contratos de manutenção que possam ser feitos indistintamente em Portugal e Espanha nas nossas oficinas. Vendemos no ano passado no país vizinho cerca de 380 camiões e esperamos crescer este ano 10 e 20 por cento.

A EVICAR ambiciona vir um dia a representar a DAF em toda a Península Ibérica?

Não propriamente. Nós ambicionamos estar bem, sermos uma empresa sólida, e podermos estar bem com todos os nossos parceiros, quer sejam colaboradores quer sejam clientes. Por outro lado, há gente muito capaz em Espanha. Se por hipótese a DAF dissesse que queria ter um parceiro único na Península Ibérica, é evidente que nós teríamos de ser os escolhidos, até porque a EVICAR é o concessionário líder na Península Ibérica e encontra-se entre os maiores clientes DAF.

E relativamente à presença da EVICAR em Angola, como é que estão a correr as coisas?

Nós estamos em Angola há 5 anos e temos lá também uma empresa de transportes. Neste momento estamos a construir as instalações da EVICAR wm Viana, que fica a 20 km de Luanda. Temos que ver Angola como o país enorme que é e trabalhar no sentido de que venhamos a instalarmo-nos noutros pontos do país, uma vez que nos encontramos numa fase de expansão em Angola, temos lá uma equipa de "primeira linha" que levámos aqui de Portugal. Já lá temos alguns clientes importantes, estamos neste momento com alguma falta de produto.

O mercado angolano é difícil?

Ao mesmo tempo em que aparecemos nós com um produto europeu, tecnologicamente evoluído, com um preço que não é dos mais baratos, aparecem no mercado angolano camiões chineses e brasileiros a preços incríveis, está instalada uma concorrência enorme de produtos novos. É-nos frequentemente relatado que os produtos chineses custam um terço dos produtos europeus, é claro que depois também não têm a mesma durabilidade. Mas Angola tem uma necessidade tão grande de tudo que qualquer produto consegue criar o seu próprio espaço.

Como avalia a presença da EVICAR em Angola em termos de risco?

Nós estamos em África porque vamos com a DAF, se fôssemos para Angola com outra marca que não conhecêssemos se calhar já pensaria duas vezes se não era um risco demasiado grande. Um país novo, uma marca nova, hábitos e culturas diferentes. Temos a vantagem de já conhecer o equipamento, temos uma relação com a marca. Já sabemos quando alguma coisa se passa com é que poderemos resolvê-la. Angola é um país independente, com gente capaz. É um desafio muito aliciante, pela diferença e por começar uma coisa de raiz. África é uma aposta nacional.

E em Portugal, a rede EVICAR prevê a construção de novas instalações?

Iniciámos neste momento a construção das novas instalações da EVICAR no Algarve, em Loulé, a sua abertura deverá ocorrer no decurso do próximo Verão. Vamos também iniciar a construção de novas instalações em Setúbal, ainda este ano, vão ser umas instalações muito parecidas com estas da BEIRACAR, exclusivamente dedicadas a camiões, uma vez que as de que dispomos naquela cidade vêm do tempo da fábrica de montagem, o que não permite os níveis de eficiência e rapidez de serviço exigíveis presentemente. As oficinas para camiões são um tipo de construção que praticamente não servem para mais nada, porque estas portas e esta forma de construir uma oficina de camiões torna muito difícil a sua adaptação a qualquer outro tipo de utilização.

É verdade que o processo de desenvolvimento do Euro 6 na DAF já se encontram numa fase adiantada do processo?

Já sabemos que vão haver camiões DAF com motores Euro 6 a partir de 2010. Tratam-se de motores Paccar MX, desenvolvidos nas instalações da DAF. A Paccar está a construir uma fábrica de motores muito grande no Mississipi, vai abrir em 2010. Já temos uma ideia do que vai acontecer com a introdução do Euro 6, algures em 2011 ou 2012. Os novos motores vão ser introduzidos na América, basicamente na Peterbilt e na Cummins. Parece que para atingir os níveis de emissões futuras, provavelmente, a solução que neste momento tecnologicamente vai permitir fazê-lo passar pela utilização duma combinação dos sistemas SCR e EGR, o que vai fazer com os motores sejam infinitamente menos poluentes.

Depois de Espanha e Angola a EVICAR está a pensar expandir-se para mais algum país?

Se eu quisesse sonhar, sem ter nada entre mãos, diria que uma presença na Europa de Leste dar-nos ia sinergias interessantes. Gostaria que os meus sucessores aqui na empresa pensassem noutras regiões do mundo, mas sempre com sinergias. Não merece a pena estar a crescer só por crescer ou para ser maior.

 

Por João Cerqueira

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